Dois
Eu pude ver
enquanto esperava que ele reagisse de alguma forma. Juntos estaríamos
completos, finalmente. Ele me esperaria enquanto eu me preparasse para vê-lo,
atenta a cada detalhe que pudesse me deixar mais bonita. E quando eu fosse ao
seu encontro um sorriso iluminaria seu rosto, eu retribuiria e logo desviaria o
meu olhar para impedi-lo de ver a grande influência que aquele sorriso tinha
sobre mim. E continuaria em sua direção até que minha mão tocasse a mão dele,
que estendida aguardava pela minha. E então enquanto ele envolvesse minha
cintura, firme e delicado ao mesmo tempo, eu abraçaria seu pescoço. Ficaríamos
assim por uma fração de eternidade; e então ele saberia que eu era tudo o que
ele precisava, eu seria sua amiga e o acolheria sempre que os olhos dele
pedissem por isso. Eu não pediria muito em troca, tudo o que eu pediria seria o
respeito dele, seu carinho.
Neste momento
, interrompendo minhas visões utópicas do nosso futuro, ele começou a dizer
algo, mas logo se calou. Eu o olhei e percebi na perplexidade do seu rosto que
eu me enganei profundamente, não havia aceitação no seu rosto, não havia nada
que me levasse a crer que ele participaria do nosso futuro perfeito; Não havia
sombra de esperança. A consciência do tamanho do erro que cometi ao dizer-lhe
que ele era mais que um amigo me manteve paralisada, olhando para o seu rosto
enquanto sua fisionomia externava cada vez mais a rejeição aos meus
planos.Senti um desconforto no peito, doía de certo modo.Eu quis fugir e me
esconder, mas meu corpo não estava ao meu favor.
-Eu... Eu não fazia ideia.. Sinto muito. - foi
tudo o que o ouvi dizer antes que ele se levantasse e fosse embora.
Outra fração
de eternidade, desta vez real, passou até que eu me desse conta de que
precisava ir para casa. Me levantei contra a vontade do meu corpo, que queria
imergir-se em qualquer superfície de esquecimento que fosse densa o bastante
para isolá-lo da dor que agora me entorpecia. Andei durante algum tempo, minha
nova e algoz verdade era minha única companheira, eu não tinha armas contra
isso, não havia escapatória, era a mais pura e cruel das verdades e eu
precisava absorvê-la, torná-la parte de mim.
Eu ainda
caminhava quando um som me tirou do meu isolamento mental, minha mão alcançou o
telefone que tocava dentro da bolsa e uma onda de dormência percorreu meu braço
quando selecionei a opção ignorar ao reconhecer o número dele no visor.
Eu não estava pronta para vê-lo ainda, eu não queria falar com ninguém, ainda
não. Agora eu tinha outra tarefa, precisava cultivar aquela verdade em mim, eu
conviveria com ela e a acolheria, por mais que isto doesse.
Que maravilhosa sua narrativa. Cada palavra me arrasta como uma corrente de água, que me puxa para seu mundo. No dia que eu estiver em seu nível me sentirei completo. Parabéns Dorath!
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